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O Turismo e a Sociedade Pós-Industrial

Autor: Roberto Pereira

O Turismo e a Sociedade Pós-Industrial

Roberto Pereira(*)

Secretário Executivo da CTI-Nordeste E-mail: robertop@elogica.com.br

Antes, a era agrícola, o poder pela terra. Depois, a industrial, a prevalência pelo capital. Agora, a era do conhecimento, onde o bem intelectual, “valor mais alta que se alevanta”, é quem assume o poder e a diferenciação, a supremacia e a força.

Nesse contexto, o turismo deixa de ser somente um sistema de variáveis sócio-econômicas para ser um dos vetores de transformação do mundo pós-industrial, promovendo, ao lado dos avanços tecnológicos, um outro modelo à nova ordem internacional, tendo, assim, um papel importante, de influência e de fomento, em todo o inevitável e inarredável processo de globalização.

Este novo período histórico, por suas inquietações e expectativas humanas, já se auspicia como de estímulo à diversão, ao lazer e ao entretenimento, a ponto de consagrar-se, segundo muitos dos sociólogos e antropólogos, como da “civilização do ócio”, da “civilização do lazer” e, por extensão, do turismo, como apregoara, ainda em meados do século passado, Jofre Dumazedier.

Neste afã, o homem, na medida do possível, investe nos seus cometimentos espirituais, sendo o ato de viajar, pelo fascínio em descobrir novas paragens e outras culturas, o seu devaneio maior.

Nasce, assim, o admirável homem novo, o “Homo turisticus”, o também chamado “Homem-férias”, quase insaciável em colocar o saber e a vivência à disposição do prazer em afivelar as malas e sair por aí, andando os caminhos do seu chão-pátrio ou as estradas, os mares e os céus de outros países.

Turismo interno ou internacional, individual ou de massa, ora movido a cultura, ora a religiosidade, ora pelo (saudável) espírito de aventura, ora em nome dos esportes. Ora, até, por motivo especial de saúde, que impõe tratamentos médicos que nem sempre inibem os passeios nos arredores de um hospital, se num centro mais adiantado, ou de estâncias hidrominerais, quando não em cidades reconhecidas como de estação de cura pelas excepcionais qualidades terapêuticas.

Vale recordar, nesse diapasão, as palavras do Dr. Roberto Runcil, Arcebispo de Cantuária, quando, em 1988, assegurou: “Na idade Média as pessoas eram turistas devido a sua religião, ao passo que hoje elas são turistas porque o turismo é a sua religião”

Sim, viajar começa a ser uma conduta de vida. Mais do que mudar de ares, o lazer é um imperativo à satisfação humana. Aliás, tão importante que o homem já se reserva aos descansos do fim do dia, do fim de semana, do fim do ano (férias) e do fim da vida (aposentadoria), esta fase no esplendor da chamada boa idade, quando os divertimentos ganham vez, ao contrário das gerações anteriores, mesmo a dos nossos pais e avós, que, aposentados, literalmente se recolhiam aos “aposentos”, mais para os embalos das cadeiras de balanço do que para viagens e passeios, à época, uma ousadia aos mais velhos.

Segundo José Vicente de Andrade, à página 62 do seu livro “Turismo – Fundamentos e Dimensões”, o chamado turismo de férias nasceu de fundamentos psicossociais, sendo filho legítimo da Revolução Industrial e fruto da síntese trabalho/repouso.

Gostei, quando em 1995, escutei de Lucrécia Ferrara, professora da Universidade de São Paulo, falando, no Congresso Internacional de Geografia e Planejamento do Turismo, o seguinte conceito: “O turista é um outro eu num eu-mesmo”.

Apesar do decréscimo mundial das demandas turísticas, conseqüência do malsinado episódio de 11 de setembro de 2001, a atividade demonstrou pujança e, até, uma certa estabilidade, seja porque a perda foi menor do se supunha, seja, também, porque progressivamente há uma retomada desses fluxos, o que prova com maior nitidez o quanto o ser humano está disposto a viajar, como a demonstrar o filósofo quando disse “o menor caminho entre você e você mesmo é a volta completa ao mundo”.

Viajar é preciso...Pensar o turista é necessário...Promover o turismo, em respeito ao usuário-cidadão, é trabalhar pelo desenvolvimento já que essa é a atividade econômica que mais cresce no cenário mundial, e mais posiciona, segundo conceitos pós-modernos, o homem no contexto do seu desenvolvimento emocional e intelectual.

Turismo e erradicação da pobreza

Autor: Roberto Pereira

Turismo e erradicação da pobreza

Roberto Pereira(*)

Ex-secretário de Educação e Cultura de Pernambuco

robertop@elogica.com.br

O turismo, atividade econômica que mais se desenvolveu nestas últimas décadas, começa a ser compreendido também como um fator de inclusão social. Já se pode afirmar o axioma: quanto mais turismo, menos pobreza. Isto porque, ao contrário da tecnologia, como nos assegura o educador e senador Cristovam Buarque, se o turismo cresce, na razão direta, crescem o emprego e renda, os impostos, as divisas, os insumos à prática do bem-estar, da qualidade de vida, o IDH da localidade onde se dá o fenômeno da visitação.

Naturalmente que estamos falando de um turismo autossustentável, integrado, que proteja a natureza e conserve os valores culturais da comunidade e do seu entorno. De um turismo que preserve o turismo, sendo sempre espaço tangível e arte e talento intangíveis à sua continuidade no dia seguinte, no tempo vindouro.

Podemos falar, assim, na cidadania da ecologia e da cultura, enfim, do turismo que agrega, em sua índole, apenas dois recursos: os naturais e os culturais, sendo bastante extensa a sua cadeia produtiva, elos e enlaces que vão desde os grandes equipamentos, a exemplo dos hotéis, chegando às tapioqueiras, aos vendedores de coco, ampliando-se na gastronomia e na culinária, ligando-se à produção associada ao turismo e à cultura que agasalha o folclore, as danças, a música, o artesanato, a poesia, nesta, a Literatura de Cordel, numa valoração à arte popular, às coisas que emanam do povo e que são um cometimento aos visitantes.

A Organização Mundial do Turismo (OMT) desfraldou esta bandeira, a do turismo como atenuante da pobreza, pelo que vem incentivando cidades e países a darem prioridade ao turismo, focando a necessidade de as expansões dos fluxos turísticos se ampliarem no seio da sociedade e que o desenvolvimento decorrente resulte em proveito dos pobres. A OMT está convicta da real possibilidade de aproveitar melhor o potencial do turismo – uma das atividades econômicas de maior dinamismo nos tempos atuais – para responder exitosamente às demandas da pobreza existente no mundo no intuito de reduzir as mazelas deste status quo.

Os 49 países menos adiantados têm reconhecido a importância do turismo para o seu crescimento social, pelo que envidam esforços na prioridade a ser dada a essa atividade econômica de tão veloz retorno à inclusão de todos no contexto de sua cadeia produtiva.

Dos 80% dos pobres do mundo, aqueles que subsistem com menos de um dólar americano/dia vivem em 12 países. Pois bem, destes, 11 tomaram o turismo como um fator de exclusão da pobreza e, pelo que se sabe, estão colhendo os frutos dos resultados positivos.

A Sudene e o Turismo

Autor: Roberto Pereira

A Sudene e o Turismo

Roberto Pereira(*)

robertop@elogica.com.br

A Superintendência do Desenvolvimento do Nordeste (Sudene) vivencia hoje a simbiose harmônica do que o sociólogo Gilberto Freyre chama de tempo tríbuo, a junção do passado, do presente e do futuro.

Naquela autarquia esplendem os encômios de sua fundação, criação do economista Celso Furtado, paraibano, que, em 1959, em atendimento ao Plano de Metas do presidente Juscelino Kubitschek, que, estimulando o processo de industrialização, assimilou, na Sudene, a ingente tarefa de reduzir a diferença do crescimento entre o Nordeste e o Centro-Sul do Brasil.

Impunha-se, à época, uma intervenção direta na Região, desde que se tomasse por rumo – e prumo – o planejamento, compreendido como único caminho à consecução do desenvolvimento, mas um desenvolvimento social, equânime.

Na transição da Adene para a Sudene foi relevante a gestão de Paulo Fontana, baiano, que, com lucidez e honradez, deu à Instituição o embasamento de que ela precisava para se tornar operante diante da missão que lhe cabe no contexto do Nordeste. Daí a compreensão que se deve ter para com cada gestor: ele vive o seu tempo histórico, as suas circunstâncias.

O atual superintendente Luiz Gonzaga Paes Landim, piauiense, há quase três meses no cargo, já disse a que veio. Homem de densa e extensa vida pública, bom parlamentar, bom executivo, zeloso quando do respeito à causa pública, dono de um cabedal admirável de cultura, sem perder a visão da economia no sentido diversificado, um forte traço quando de variáveis que devem dar embasamento ao desenvolvimento responsável, verde, autossustentável.

O que fez Paes Landim? De logo, ao lado de sua valorosa equipe, reconheceu no turismo, por seus benefícios ao desenvolvimento, gerador de emprego e renda, de inclusão social, de impostos, importante para ser colocado no contexto de suas prioridades. E no turismo, sem medo e sem descanso, o grave problema da malha aérea nordestina.

Para tanto, ao lado da CTI Nordeste, agregou os secretários de turismo dos estados nordestinos, bem como as capitais e municípios de interesse turístico. Criou uma força-tarefa que ele preside. Está contando com o apoio de todos, inclusive de parceiros, a exemplo dos bancos estatais, os de natureza social, para a palavra do dia: parcerias.

Landim já estudou e levantou problemas, esboçando equações para ensejar soluções plausíveis à indústria sem chaminé nas paragens nordestinas, atendendo a uma demanda reprimida. Na Sudene, a esperança-certeza de nossa Região.

Artesanato, gastronomia e turismo

Autor: Roberto Pereira

Artesanato, gastronomia e turismo

Roberto Pereira(*)

Ex-secretário de Educação e Cultura de Pernambuco

robertop@elogica.com.br

O artesanato é uma das formas de manifestação local que os turistas podem levar para casa. A lembrança é mais do que um bibelô, ela representa traços da cultura local, experiências, vivências, além de ser fabricada com material regional. Cada Estado tem o seu jeito, produtos e características próprias para traduzir os costumes da região. É fácil encontrar, dentro de um mesmo Estado, tipos de produtos e tendências completamente distintos, apresentando a notável diferença dos hábitos. Um exemplo disso é o artesanato pernambucano. No Estado, encontram-se peças de xilogravura e muita literatura de Cordel.

Indo para o interior, em Gravatá, temos o polo moveleiro. Entrando mais no Estado, indo em direção ao sertão, em Caruaru, é possível encontrar várias peças de cerâmica. Os bonecos de mestre Vitalino, produzidos com barro, imortalizaram o seu produtor. As peças contam, até hoje, histórias do cotidiano dos moradores da cidade e do folclore nordestino. Foi com esta arte que o polo econômico do agreste pernambucano transformou-se no maior centro de artes figurativas da América Latina.

A tradição e criatividade do povo são o combustível do artesanato. E é munido dessa informação que o turista compra os produtos para registrar e ter sempre consigo um pouco das lembranças da viagem. O artesanato é uma eficiente ferramenta para desenvolver a economia local sustentável. Movimentando o comércio da região, este tipo de arte pode ser também uma oportunidade de negócio.

Enquanto isso, sabores são elementos extremamente subjetivos que carregam vários significados de acordo com as vivências de cada pessoa. É com esse intuito que é possível afirmar que o paladar é um dos sentidos mais importantes, pois ele também tem memória. Através dos sabores, é possível reviver bons momentos, relembrar uma pessoa específica ou um lugar especial. É esse apelo sentimental que fortalece as boas lembranças que um turista pode levar para casa a partir de suas experiências gastronômicas por onde passa.

Na grande maioria, os ingredientes utilizados nos pratos são aqueles que abundam no local e que combinam com o clima da região. Com harmonia entre todos os elementos, a experiência é mais bem-sucedida. A culinária é um traço forte da cultura nordestina, por possuir sabores únicos. É por este motivo que a gastronomia é um atrativo turístico para a região.

Por isso Pla, um consagrado especialista espanhol, afirmou: a cozinha de um país é uma paisagem posta na caçarola. O Nordeste – estou certo – pousa bem em todas as suas caçarolas.

O turismo e a Rio + 20

Autor: Roberto Pereira

O turismo e a Rio + 20

Roberto Pereira(*)

Ex-Secretário de Educação e Cultura de Pernambuco

robertop@elogica.com.br

No século passado, já no final da década de 60, começaram a surgir os primeiros clamores em defesa da natureza, que, sofrendo as agressões praticadas pelo homem, passou a dar sinais de degradação. Daí o despertar da consciência de toda a humanidade, assombrada com a depredação cometida em nome do desenvolvimento e do crescimento econômico. Usos e abusos advindos do século 18, com a Revolução Industrial, prolongados até os dias de hoje.

Colimando-se a esse clamor, a Organização das Nações Unidas (ONU) realizou um importante encontro entre os seus países afiliados, apoiada por especialistas com o propósito de pesquisar essas ocorrências, propondo medidas que foram pactuadas entre os participantes. Essa Reunião de Estocolmo ficou conhecida como a ECO-72, cujo legado foi o de conscientizar os habitantes deste Planeta sobre as medidas de preservação do meio ambiente.

Agora, no ensejo da Rio+20, Conferência das Nações Unidas sobre Desenvolvimento Sustentável, o turismo, que tem como recursos a natureza e a cultura, esplende como uma atividade a ser estudada e praticada consoante os ditames da preservação para que os seus objetivos-fins sejam alcançados sob o prisma da sustentabilidade.

Uma medida foi a de assegurar a todos os povos o direito inalienável às viagens, estas fomentadas por políticas públicas de inclusão e sob o manto da preservação para que o turismo não destrua o próprio turismo. Avultou a necessidade de se levar à humanidade a cultura turística haurida no zelo com a natureza e com a preservação dos valores ligados à inteligência humana, à tradição de cada povo onde acontecem os fluxos de visitações dos que saem para buscar o intercâmbio entre as civilizações. Viajar é conversar com os séculos, afirma Descartes.

Sustentabilidade e inclusão. Esta tão importante que, se um arquiteto antes esboçava uma calçada, precisa agora pensar numa calçada que dê acesso a toda a gente. Outra concitação foi a da participação proativa dos museus e centros culturais, para que sejam organismos vivos, dinâmicos, no processo cultural que, assim, se habilitam também à economia criativa, esta professada como atividade básica à sustentabilidade dos valores artístico-culturais.

Exaltação e exortação às políticas públicas cujos critérios sejam levados às escolas e ao setor de Viagens e Turismo, bem como, por exemplo, aos modais de transporte, aos meios de hospedagem, para que adotem iniciativas compensatórias à emissão de carbono, evitando o desperdício dos recursos naturais, e levando à cadeia produtiva do turismo campanhas por um trade mais verde, apto à obtenção do equilíbrio entre o turismo e o meio ambiente. Assim seja!

Gonzaga e as suas cem luas

Autor: Roberto Pereira

Gonzaga e as suas cem luas

Roberto Pereira(*)

Ex-secretário de Educação e Cultura de Pernambuco

robertop@elogica.com.br

Ninguém mais do que Luiz Lua Gonzaga do Nascimento contribuiu, através da música, para o conhecimento do Nordeste brasileiro. Telúrico, contou e cantou a saga nordestina, inovando com sua sanfona os ritmos, tal e qual fez com o forró e o baião, o xote e o xaxado. Uma sanfona que ele juntou ao triângulo e à zabumba, fazendo o esqueleto do Brasil remexer.

Superando obstáculos, Gonzaga ganhou o mundo, antes residindo no Ceará e, em seguida, no Rio de Janeiro, quando a sua musicalidade ganhou dimensão, a ponto de ter merecido um busto, em sua homenagem, na Universidade de Oxford, Inglaterra. Outro busto existe na frente do Centro de Tradições Nordestinas e na Rádio Atual, em São Paulo, onde fui por mais de uma vez, numa delas, debatendo Gonzaga com o jurado Pedro de Lara.

Fui amigo de Lua, apelido colocado por Paulo Gracindo, numa referência ao seu rosto arredondado. Na sua última apresentação no Cecon, em Olinda, pude entregar-lhe uma placa em nome da Fundação Cidade do Recife, que, à época, me tinha como presidente.

Muito me emocionou a última entrevista por ele concedida à imprensa, no caso a este jornal, quando chegou a dizer: “(...) O primeiro grande grito do São João no Recife veio de Roberto Pereira, e o prefeito Joaquim Francisco assinou embaixo. E vai ser um estouro.”

A sua doença, câncer de próstata, descoberta em junho de 1989, deixou-o fora do ciclo junino, uma frustração para ele. Fui dos seus amigos a cuidar dele nesse período crítico. Internado no Hospital Santa Joana, com metástase nos ossos, Gonzaga padeceu com dores insuportáveis, substituindo os gemidos pelos aboios. Aboiar era uma forma de afastar a tristeza.

Em 2 de agosto do mesmo ano, 1989, chegou o dia nefasto para a cultura pernambucana. Gonzaga, imortalizado na sua arte, fechava os olhos para ganhar a eternidade. O seu velório foi na Assembleia Legislativa, onde os forrozeiros cantavam as suas músicas, a alma da gente nordestina. A missa, de manhã, celebrada por Dom Helder Câmara, para, em seguida, ouvirmos, emocionados, Fernando Borges tocar, no violino, Asa Branca, o hino do Nordeste.

Gonzaga deixa o legado da nordestinidade, colimando-se com os maiores da música popular brasileira, muitos dos quais também compondo e cantando o forró e o baião. Da economia criativa quando se interligou ao artesanato de couro no chapéu, no gibão, nas alpercatas. Da gastronomia em seu repertório, ênfase para a Feira de Caruaru e Ovo de Codorna, dentre outras composições suas e de parceiros, a exemplo de Zé Dantas e Humberto Teixeira. As suas cem luas ainda luzem a musicalidade nordestina e brasileira.